Revista de Antropologia
ISSN 0034-7701 versão impressa
Rev. Antropol. v.47 n.1 São Paulo 2004
ARTIGOS
Igor José de Renó Machado2
Professor do Departamento de Ciências Sociais - UFSCar
RESUMO
Este artigo se propõe a explorar o conceito de identidade-para-o-mercado, criado a partir das idéias de Jameson, contidas em seu livro Pós-modernismo: a lógica cultural no capitalismo tardio, e explorado por meio de reflexões que remetem às questões, da minha pesquisa de doutorado, sobre a imigração brasileira no Porto. Apoiado nessa perspectiva, pode-se verificar o papel central do Estado-nação na produção e articulação de identidades-para-o-mercado e de imagens identitárias de fácil consumo num mercado global.
Palavras-chave: identidade, pós-modernismo, imigrações internacionais, Estado-nação.
SALGUEIRO, Valéria. Grand Tour: uma contribuição à historia do viajar por prazer e por amor à cultura. Rev. Bras. Hist., São Paulo, v. 22, n. 44, 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882002000200003&lng=es&nrm=iso.
Acesso em: 01 Mayo 2007. Pré-publicação.
terça-feira, 1 de maio de 2007
Nacional estrangeiro: história social e cultural do modernismo artístico em São Paulo. 2004.
FRANCOZO, Mariana; ROSSI, Luiz Gustavo Freitas. Nacional estrangeiro: história social e cultural do modernismo artístico em São Paulo. Rev. Antropol., São Paulo, v. 47, n. 1, 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77012004000100011&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 01 Maio 2007. Pré-publicação.
Naufrágio e galanteio: viagem, cultura e cidades em Mário de Andrade e Gilberto Freyre
Revista Brasileira de Ciências Sociais
ISSN 0102-6909 versão impressa
Rev. bras. Ci. Soc. v.20 n.57 São Paulo fev. 2005
José Tavares Correia de Lira
RESUMO
Na literatura de viagem, dois gêneros tradicionais se destacam: o diário e o guia; e dois personagens: o viajante e o cicerone. O objetivo deste artigo é avançar na compreensão das cidades como campo cultural na perspectiva da viagem e dos viajantes. Para tal, proponho repensar a distância entre Mário de Andrade e Gilberto Freyre, figuras centrais do modernismo e da antropologia no Brasil, a partir do exame de suas experiências de viagem. Mais especificamente, trata-se de encenar um encontro entre estas personalidades diversas, às vezes antagônicas, em um topos comum de acesso à cultura brasileira: as cidades do Norte e do Nordeste do Brasil, surpreendidas na crise do regime agro-exportador e patriarcal, com seus resíduos de paisagem e caráter, povo e modos de vida, memória, forma urbana, arquitetura, arte e folclore. A base de leitura são os diários e crônicas redigidos pelo escritor paulistano ao longo de suas duas longas viagens etnográficas à Amazônia (1927) e ao Nordeste (1928/1929); o diário de juventude, as crônicas de jornal e o Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife (1934), do antropólogo pernambucano. Se a opção por estes escritos - menores no conjunto de suas obras, é verdade, porém sólidas posições nos gêneros em que se incluem - instiga o turista e o cicerone a uma relação de proximidade, neles é possível flagrar, ao lado da viagem prazerosa, uma dimensão exploratória e etnográfica da sociedade moderna.
Palavras-chave: Mário de Andrade; Gilberto Freyre; Viagem; Cidades; Modernismo brasileiro.
LIRA, José Tavares Correia de. Naufrágio e galanteio: viagem, cultura e cidades em Mário de Andrade e Gilberto Freyre. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo, v. 20, n. 57, 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092005000100009&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 01 Maio 2007. Pré-publicação.
ISSN 0102-6909 versão impressa
Rev. bras. Ci. Soc. v.20 n.57 São Paulo fev. 2005
José Tavares Correia de Lira
RESUMO
Na literatura de viagem, dois gêneros tradicionais se destacam: o diário e o guia; e dois personagens: o viajante e o cicerone. O objetivo deste artigo é avançar na compreensão das cidades como campo cultural na perspectiva da viagem e dos viajantes. Para tal, proponho repensar a distância entre Mário de Andrade e Gilberto Freyre, figuras centrais do modernismo e da antropologia no Brasil, a partir do exame de suas experiências de viagem. Mais especificamente, trata-se de encenar um encontro entre estas personalidades diversas, às vezes antagônicas, em um topos comum de acesso à cultura brasileira: as cidades do Norte e do Nordeste do Brasil, surpreendidas na crise do regime agro-exportador e patriarcal, com seus resíduos de paisagem e caráter, povo e modos de vida, memória, forma urbana, arquitetura, arte e folclore. A base de leitura são os diários e crônicas redigidos pelo escritor paulistano ao longo de suas duas longas viagens etnográficas à Amazônia (1927) e ao Nordeste (1928/1929); o diário de juventude, as crônicas de jornal e o Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife (1934), do antropólogo pernambucano. Se a opção por estes escritos - menores no conjunto de suas obras, é verdade, porém sólidas posições nos gêneros em que se incluem - instiga o turista e o cicerone a uma relação de proximidade, neles é possível flagrar, ao lado da viagem prazerosa, uma dimensão exploratória e etnográfica da sociedade moderna.
Palavras-chave: Mário de Andrade; Gilberto Freyre; Viagem; Cidades; Modernismo brasileiro.
LIRA, José Tavares Correia de. Naufrágio e galanteio: viagem, cultura e cidades em Mário de Andrade e Gilberto Freyre. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo, v. 20, n. 57, 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092005000100009&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 01 Maio 2007. Pré-publicação.
Modernismo e modernismos: as controvérsias de quixotes
Maria Arminda do Nascimento Arruda Revista Brasileira de Ciências Sociais
ISSN 0102-6909 versão impressa
Rev. bras. Ci. Soc. v. 13 n. 36 São Paulo Fev. 1998
Resenha para Mônica Pimenta VELLOSO. Modernismo no Rio de Janeiro. Turunas e quixotes. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1996. 235 páginas.
ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Modernismo no Rio de Janeiro: Turunas e quixotes. Rev. bras. Ci. Soc. [online]. 1998, vol. 13, no. 36 [citado 2007-05-01]. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69091998000100014&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0102-6909.
ISSN 0102-6909 versão impressa
Rev. bras. Ci. Soc. v. 13 n. 36 São Paulo Fev. 1998
Resenha para Mônica Pimenta VELLOSO. Modernismo no Rio de Janeiro. Turunas e quixotes. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1996. 235 páginas.
ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Modernismo no Rio de Janeiro: Turunas e quixotes. Rev. bras. Ci. Soc. [online]. 1998, vol. 13, no. 36 [citado 2007-05-01]. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69091998000100014&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0102-6909.
EM BUSCA DO MODERNISMO PERDIDO
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Cynara Menezesda Reportagem LocalUm modernista praticamente desconhecido volta à tona com o relançamento de "Domingo dos Séculos", ensaio iconoclasta e cheio de humor publicado por Rubens Borba de Moraes (1899-1986) em 1924 e fora de catálogo desde então.
Mais conhecido como bibliógrafo —foi diretor da Biblioteca Municipal de São Paulo (hoje Mário de Andrade, de quem foi amigo de infância) e da Biblioteca Nacional—, Moraes foi uma espécie de "boa praça" do movimento, irreverente e brincalhão.
Na organização da Semana de Arte Moderna de 22, era, como se definiu, um "executive office", espécie de empresário dos artistas envolvidos. Durante a Semana, porém, foi contaminado pelo tifo e teve de ficar em casa, enquanto São Paulo pegava fogo.
Participaria da criação das revistas "Klaxon", "Terra Roxa e Outras Terras" e da primeira fase da "Revista de Antropofagia". Mas, embora "Domingo dos Séculos" tivesse sido elogiado até por Sérgio Buarque de Holanda, não se aventuraria mais pela literatura. "Os que gostavam de fato de literatura continuaram", contou, poucos anos antes de morrer. "Descobri que não tinha nenhum talento literário e que não me interessava fazer literatura. O Carlos Drummond de Andrade diz que é mentira, que eu tenho talento, mas não tenho." Se dedicaria, então, às bibliografias. Seu trabalho mais famoso, a "Bibliografia Brasiliana", é considerado por críticos "um monumento de erudição".
Já o "Domingo" é um ensaio despojado. "A palavra para defini-lo é jovialidade. É um livro alegre, me diverti muito quando li", diz a professora de literatura da Unicamp Maria Eugênia Boaventura, uma das maiores especialistas brasileiras no período, para quem a obra se aproxima, pela leveza, de alguns livros de Mário de Andrade, como "Paulicéia Desvairada".
O nome do livro, relançado em edição fac-similar, ou seja, com a grafia da época preservada, vem do que, acredita seu autor, se tornou a arte: "Arte moderna, arte de domingo, de quem 'digere bem' e vai dar seu passeiozinho, sorrindo, sem preconceitos", escreve. Como estudou na Suíça, embora jovem, Moraes voltou já conhecedor de nomes até então pouco divulgados por aqui, como os de Marcel Proust ou Henri Bergson, além de Rimbaud, sobre quem tece, à sua maneira, uma biografia. E é muitas vezes profético. "Mais tarde, quando os críticos de então quiserem citar um representativo do nosso século, citarão Proust", diz, dois anos apenas após a morte do autor de "Em Busca do Tempo Perdido". Ou, quando nem internet nem globalização sonhavam em aparecer: "Hoje, que os jornais e os livros de qualquer país são lidos em toda a parte, neste século admirável em que os povos parecem que se acotovelam, é impossível ao homem culto não deixar transparecer no seu falar a influência da língua de seus irmãos".
DOMINGO DOS SÉCULOS.
De: Rubens Borba de Moraes. Editora: Giordano/ Imprensa Oficial. 112 págs.
Trechos
Publicado na Folha de S.Paulo, sábado, 28 de julho de 2001
Cynara Menezesda Reportagem LocalUm modernista praticamente desconhecido volta à tona com o relançamento de "Domingo dos Séculos", ensaio iconoclasta e cheio de humor publicado por Rubens Borba de Moraes (1899-1986) em 1924 e fora de catálogo desde então.
Mais conhecido como bibliógrafo —foi diretor da Biblioteca Municipal de São Paulo (hoje Mário de Andrade, de quem foi amigo de infância) e da Biblioteca Nacional—, Moraes foi uma espécie de "boa praça" do movimento, irreverente e brincalhão.
Na organização da Semana de Arte Moderna de 22, era, como se definiu, um "executive office", espécie de empresário dos artistas envolvidos. Durante a Semana, porém, foi contaminado pelo tifo e teve de ficar em casa, enquanto São Paulo pegava fogo.
Participaria da criação das revistas "Klaxon", "Terra Roxa e Outras Terras" e da primeira fase da "Revista de Antropofagia". Mas, embora "Domingo dos Séculos" tivesse sido elogiado até por Sérgio Buarque de Holanda, não se aventuraria mais pela literatura. "Os que gostavam de fato de literatura continuaram", contou, poucos anos antes de morrer. "Descobri que não tinha nenhum talento literário e que não me interessava fazer literatura. O Carlos Drummond de Andrade diz que é mentira, que eu tenho talento, mas não tenho." Se dedicaria, então, às bibliografias. Seu trabalho mais famoso, a "Bibliografia Brasiliana", é considerado por críticos "um monumento de erudição".
Já o "Domingo" é um ensaio despojado. "A palavra para defini-lo é jovialidade. É um livro alegre, me diverti muito quando li", diz a professora de literatura da Unicamp Maria Eugênia Boaventura, uma das maiores especialistas brasileiras no período, para quem a obra se aproxima, pela leveza, de alguns livros de Mário de Andrade, como "Paulicéia Desvairada".
O nome do livro, relançado em edição fac-similar, ou seja, com a grafia da época preservada, vem do que, acredita seu autor, se tornou a arte: "Arte moderna, arte de domingo, de quem 'digere bem' e vai dar seu passeiozinho, sorrindo, sem preconceitos", escreve. Como estudou na Suíça, embora jovem, Moraes voltou já conhecedor de nomes até então pouco divulgados por aqui, como os de Marcel Proust ou Henri Bergson, além de Rimbaud, sobre quem tece, à sua maneira, uma biografia. E é muitas vezes profético. "Mais tarde, quando os críticos de então quiserem citar um representativo do nosso século, citarão Proust", diz, dois anos apenas após a morte do autor de "Em Busca do Tempo Perdido". Ou, quando nem internet nem globalização sonhavam em aparecer: "Hoje, que os jornais e os livros de qualquer país são lidos em toda a parte, neste século admirável em que os povos parecem que se acotovelam, é impossível ao homem culto não deixar transparecer no seu falar a influência da língua de seus irmãos".
DOMINGO DOS SÉCULOS.
De: Rubens Borba de Moraes. Editora: Giordano/ Imprensa Oficial. 112 págs.
Trechos
"Não se deve rir de um poema dadaísta, caçoar de um quadro cubista e não se deve
dizer: "Não gosto". (...) Gosta-se de empadinhas de camarão, de bombons, de
mulheres gordas, mas não se gosta de arte moderna: compreende-se."
do livro "Domingo dos Séculos", de Rubens Borba de Moraes"O modernismo existe, é inútil revoltar-se. (...)Ouço daqui seus gritos de protesto. Não grite tanto; atrapalha minhas idéias."
IDEM
DISCUTIDA AINDA EM NOSSOS DIAS, COMPLETA 40 ANOS A "SEMANA DE ARTE MODERNA"
Publicado na Folha de S.Paulo, quinta-feira, 8 de fevereiro de 1962.
Sem nenhum outro intuito que não o de combater os conservadores da epoca e de criar alguma coisa de novo nas varias manifestações artisticas, eclodia em São Paulo, há 40 anos, movimento ainda hoje discutido e que logo depois de iniciado teve grande repercussão —a "Semana de Arte Moderna". Durante 8 dias —de 9 a 16 de fevereiro de 1922— o Teatro Municipal serviu de palco aos jovens intelectuais, então chamados de "futuristas", que, inconformados com o academismo reinante na literatura, na musica e nas artes plasticas, resolveram abrir trincheiras em busca de um movimento renovador. E o conseguiram, não obstante a ferrenha oposição de muitos, conforme registram cronicas, noticias e outras publicações da epoca. O grupo vanguardista - Graça Aranha, Mario de Andrade, Osvald de Andrade, Menotti del Picchia, Ronald de Carvalho, Renato de Almeida, Ribeiro Couto e Guilherme de Almeida, na literatura; Vila-Lobos, na musica; Anita Malfati, Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro, Zina Aita, John Graz, Ferrignac, Ian de Almeida Prado e Martins Ribeiro, na pintura; Victor Brecheret e W. Haerberz, na escultura; e Antonio Moya e George Przrember, na arquitetura —permaneceu unido, resistindo às investidas dos que chegaram a classificar o movimento como sendo de "loucos" e de "irresponsaveis". E foi graças a esse elo que a "Semana de 22" alcançou o objetivo visado: despertar a consciencia dos artistas em formação ou veteranos para a grande batalha —a da renovação das artes.
Anita, a pioneira
— "O que eu penso da "Semana de 22"? Foi alguma coisa de inesquecivel, que sacudiu os meios artisticos de todo o país. E mais do que justo, porque era realmente impossivel tolerar-se o academismo, a inercia, o mau-gosto da epoca. Alguma coisa tinha de ser feita. Assim, eu me orgulho de ter contribuido com uma parcela para o exito do movimento" —são expressões da pintura Anita Malfatti, apontada como a pioneira da arte moderna no Brasil. Repousando em sua casa de campo, no municipio de Diadema, a artista —que estudou na Alemanha e frequentou os grandes ateliês da França, Italia e dos EUA— revela que a "Semana de 22" foi o que houve de mais combatido na epoca. —"Mas o nosso grupinho —salienta— manteve-se despreocupado e com isso nos impusemos". A titulo de curiosidade, ela informa que era comum encontrarem colados atrás dos quadros expostos no saguão do Teatro Municipal "bilhetinhos desaforados e alguns até inconvenientes".
Contra o abstrato
Enquanto mostra ao reporter algumas das numerosas pinturas que ainda conserva, a artista paulistana assinala que, embora o movimento de 1922 visasse mudança do panorama artistico, no tocante à pintura, jamais se pensou que poderia descambar para o grau de abstracionismo que hoje se verifica. — "O que mais estranho não é propriamente a repetição que se nota na quase totalidade dos artistas abstracionistas, pois isso se transformou num fenomeno universal, mas sim o fato de o Brasil ser riquissimo em temas autoctones —e tão poucos artistas os aproveitam com categoria. Com isso, à exceção de uma minoria que luta pela autentica arte nacional —e eu me sinto incluida entre eles— a maioria não faz outra coisa senão repetir, nada criando. Uma das causas que está a provocar essa situação é a influencia comercial: porque a preocupação de muitos artistas é a de apenas vender, deixando para segundo plano a arte em si, a pesquisa".
Ainda procurando
Anita Malfatti diz que ela própria continua procurando resolver o problema da autentica arte nacional. Seus quadros não a desmentem; os temas regionais ali sempre estão presentes. Não faltam em suas pinturas festas da roca, gente do campo, orações entre caboclos, comemorações juninas etc. A artista ainda hoje pinta, embora sua primeira exposição, na rua Libero Badaró, em 1917, causasse escandalo pelo "modernismo" de suas linhas. Sentada numa cadeira de balanço, Anita traça figuras, casas, arvores, balões de São João, santos e meninos de cor esqualida com a mesma disposição e dedicação de há meio seculo —garante a pintora. — "O dia em que eu parar de pintar pode anotar, eu morro" —diz Anita com os olhos bem abertos. Ela gostaria (e tem fé mesmo) de viver como a "Grandma" Moses, celebre pintora norte-americana falecida há poucos meses, com 101 anos: lidar com sua arte até o ultimo sopro de vida.
Di: sem definição
Outro "sobrevivente" do movimento de reação é o pintor carioca Emiliano Di Cavalcanti. A pergunta como definiria a "Semana" após quatro decadas de sua realização, respondeu: — "Cabe aos criticos definir, passados os 40 anos, a realização artistica de 1922 e suas consequencias. Nunca pude definir precisamente o que foi a "Semana" e como ela atua dentro de mim mesmo. Só sei senti-la que é diferente. Sinto-a como motivo categorico de afirmação na minha personalidade, de moço turbulento e afirmação que me ensinou a perseverar nos motivos que me levaram a realizá-la". Di, que já completou 65 anos (45 de pintura), resguarda em suas obras as seguintes "marcas registradas": a) Luta pela liberdade de expressão; e b) sentimento nacional. Sua opinião é de que a "Semana" abriu um novo caminho na arte, "desafogando o transito na velha estrada do academismo".
Para libertar
Artista dos mais apreciados e discutidos, Di Cavalcanti - que certa vez disse de si: "Eu sou escritor, poeta bissexto e caricaturista" —fala depois sobre as consequencias do movimento de 1922, de maneira especial quanto à influencia da "Semana" no aparecimento de numerosos artistas abstratos. — "Conheciamos os movimentos não formalistas das artes na Europa, cujas primeiras manifestações já datavam de alguns anos. Mas o nosso movimento não tinha por finalidade indicar caminhos ou trilhar determinada escola de arte. A finalidade era libertar o artista de um atraso academico. Se os artistas brasileiros ou estrangeiros, habitando o Brasil, são atualmente na maioria abstracionistas, é porque mediocremente apegam-se a um novo academismo, demonstrando não possuirem o espirito que dominou a "Semana de 1922".
Arte brasileira
— E existem em consequencia da "Semana de Arte Moderna" a autentica arte brasileira? "É um absurdo —diz o artista— perguntar, se num país como o Brasil, se há arte autenticamente brasileira, tratando-se da arte como fenomeno cultural." Para melhor compreensão do seu ponto de vista, acrescenta: — "Toda tendencia cultural no Brasil é uma procura de aproximação com o pensamento europeu. Nosso problema de desenvolvimento cultural é o de alcançar o nivel das altas culturas européias, como para a Renascença foi atingir o nivel superior do pensamento greco-latino. Ser autenticamente brasileiro, em arte, é assimilar o conhecimento ao sentimento, é desenvolver a aquisição cultural, dentro do quadro das realizações propriamente nacionais." Di Cavalcanti pode ser assim "pintado": 1) acha que nasceu pintor; 2) escreveu "Viagem de Minha Vida", em 2 volumes; 3) admite que sofreu influencia da escola de Paris, onde plasmou sua formação estetica; 4) procura ser "acima de tudo Di Cavalcanti"; 5) gosta demais de poesias, especialmente de Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Carlos Drumond de Andrade, Cassiano Ricardo, Frederico Schimidt e João Cabral; 6) sua primeira exposição foi em 1916, no Rio, no Salão dos Humoristas.
Emancipação das artes
Como testemunha da "Semana de Arte Moderna", o intelectual, critico e divulgador das artes plasticas Paulo Mendes de Almeida deu este depoimento: "A "Semana" constituiu primeiro movimento coletivo no sentido da emancipação das artes e da inteligencia brasileiras. Naqueles dias agitados de 22, concertos, conferencias, recitativos, bailados e uma exposição de artes plasticas compuseram o programa do certame, que teve por sede o Teatro Municipal, e tudo se passou entre vaias, protestos, discussões e turbulencias, nas noites quietas da então pacata cidade". Após citar os nomes daqueles que sacudiram o academismo então reinante, sugere a transcrição de breve depoimento de Mario de Andrade, ao lhe ser perguntado: - quem teve a idéia da "Semana"? O texto do autor de "Macunaima" tem este começo: "Quem teve a idéia da Semanas de Arte Moderna? Por mim não seu quem foi, nunca soube, só posso garantir que não fui eu. O movimento, alastrando-se aos poucos, já se tornara uma especie de escandalo publico permanente. Já tinhamos lido nossos versos no Rio de Janeiro; e numa leitura principal, em casa de Ronald de Carvalho, onde tambem estavam Ribeiro Couto e Renato de Almeida, numa atmosfera de simpatia, "Paulicéia Desvairada" obtinha o consentimento de Manuel Bandeira, que em 1919 ensaira os seus primeiros versos livres no "Carnaval". E eis que Graça Aranha, celebre, trazendo da Europa a sua "Estetica da Vida", vai a São Paulo, e procura nos conhecer e agrupar em torno de sua filosofia. Nós nos riamos um bocado da "Estetica da Vida" que ainda atacava certos modernos europeus da nossa admiração, mas aderimos francamente ao mestre. E alguem lançou a idéia de se fazer uma semana de arte moderna, com exposição de artes plasticas, concertos, leituras de livros e conferencias explicativas. Foi o proprio Graça Aranha? Foi Di Cavalcanti?... Porem, o que importava era poder realizar essa idéia, alem de audaciosa, dispendiosissima. E o fator verdadeiro da "Semana de Arte Moderna" foi Paulo Prado. E só mesmo uma grande figura como ele e uma cidade grande mas provinciana como São Paulo poderiam fazer o movimento modernista e objetivá-lo na "Semana". Paulo Mendes de Almeida assevera que, pelas afirmações de Mario de Andrade, foi um pouco de cada um daqueles reformadores que ajudaram a objetivação de uma idéia logo aceita. Frisa, contudo: - "Não devemos fiar-nos na modestia com que Mario de Andrade omite sua propria e importante contribuição".
O mais importante
Para Paulo Mendes de Almeida o mais importante não é apurar quem teve a idéia da realização da "Semana", mas diagnosticar o que o movimento pretendia, o que representava, o que alcançaria. Para tanto, esclarece que não será tarefa facil. Diz: — "Em primeiro lugar, era o que pudesse haver de mais heterogeneo, quando aspirava a ser principalmente heteroclita (que se desvia das regras da arte), como proclamavam os mais afoitos. Nela, se pode dizer, somente num ponto houve uma quase unidade ideologica: o da necessidade de mudar. De mudar, sem que se precisasse bem o que, nem para onde. Foi isso o que lhe deu o carater eminentemente destrutivo, sendo sob esse aspecto, de resto, que ela ganha para nós extraordinaria importancia. Porque o ideario mesmo era o que de mais vago se possa imaginar. Verdade é que constituia quase uma constante o sentimento nacionalista, o desejo de redescobrir, ou melhor, de descobrir afinal o Brasil. Na realidade, não conseguiram fazê-lo, pois que somente mais tarde o Brasil nos seria efetivamente desvendado, pela equipe de homens da geração de 1930, numa tarefa a que o sr. Gilberto Freire veio dar explicação, consciencia e conteudo em termos de sociologia."
O safanão
Enfim, após outras considerações Paulo Mendes de Almeida afirma que se sentia à vontade para afirmar que, não obstante todas as suas falhas, a "Semana de Arte Moderna" constituiu evento da maior relevancia. — "O movimento já não era um gesto isolado de rebeldia que presenciavamos, mas um clamor em coro, um movimento de grupo, em que se integravam importantes personalidade, e que deu, positivamente, um safanão naquele adormecido em berço esplendido Brasil das letras das artes e do pensamento."
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O SARAMPO ANTROPOFÁGICO
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A respeito do movimento modernista, os críticos e os estudiosos entram em sintonia num ponto: a Semana de Arte Moderna, realizada em 1922, em São Paulo, representou um marco, verdadeiro ponto de inflexão no modo de ver o Brasil. Não só de ver como de escrever sobre o Brasil. Em geral, os artistas e intelectuais de 1922 queriam arejar o quadro mental da nossa "intelligentsia", queriam pôr fim ao ranço beletrista, à postura verborrágica e à mania de falar difícil e não dizer nada. Enfim, queriam eliminar o mofo passadista da vida intelectual brasileira.Do ponto de vista artístico, o objetivo fundamental da Semana foi acertar os ponteiros da nossa literatura com a modernidade contemporânea.Para isso, era necessário entrar em contacto com as técnicas literárias e visões de mundo do futurismo, do dadaísmo, do expressionismo e do surrealismo, que formavam, na mesma época, a vanguarda européia. Desse ângulo, o modernismo é expressão da modernização operada no Brasil a partir da década de 20, que começava a dar sinais de mudança (vide, no plano político, o movimento rebelde dos tenentes) de uma economia agroexportadora para uma economia industrial.Esse juízo é, do ponto de vista mais geral, certeiro; no entanto, ele não deve esconder as diferenças no seio do movimento de 22. Diferenças de ordem política, ideológica e estética. Na verdade, houve duas correntes modernistas: uma de inspiração conservadora e totalitária, que iria, em 1932, engrossar as fileiras do integralismo, e outra, mais crítica e dissonante, interessada em demolir os mitos ufanistas e contribuir para o conhecimento de um Brasil real que não aparecia nas manifestações oficiais e oficiais da nossa cultura. O pressuposto essencial de 22, o autoconhecimento do País, tinha a um só tempo de acabar com o mimetismo mental e denunciar o atraso, a miséria e o subdesenvolvimento. Mas denunciar com uma linguagem do nosso tempo, moderna, coloquial, aproveitando o arsenal estilístico e estético das inovações vanguardas européias.Essas duas correntes se delineiam em 1924, com a publicação do primeiro manifesto de Oswald de Andrade, Pau Brasil, no "Correio da Manhã". Nele já estava inscrito o lema que guiaria toda a atividade artística e intelectual da ala crítica modernista: "A língua sem arcaísmos, sem erudição. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos". A outra corrente, conservadora, que iria opor-se a Oswald de Andrade, seria conhecida por verde amarelismo, cujo batismo mostra bem a filiação nacionalista e xenófoba: um canto de amor, cego e irrestrito, às "glórias pátrias". Em 1928, essa oposição recrudesce. E, com ela, a politização do modernismo. Verde-amarelismo transmuta-se em Anta; Paulo-Brasil deságua no movimento antropofágico.Neste mês de maio faz 50 anos que o inquieto, o irreverente e zombeteiro Oswald de Andrade escreveu o manifesto literário antropofágico. De lá para cá muita coisa mudou no Brasil. Tanto política como culturalmente. Apesar de marcado ainda por traços de dependência, o País se industrializou nas últimas décadas; houve mudanças sociais e econômicas significativas. Se não quisermos apenas celebrar ingenuamente a data, temos de nos perguntar: teria ainda alguma coisa a dizer e a ensinar o manifesto literário escrito em 1928?Para isso, seria preciso situar o núcleo da antropofagia, que Oswald de Andrade, aliás, nunca formulou clara e explicitamente; seu manifesto foi escrito numa linguagem elíptica, repleta de ambiguidades e sem ligação explícita entre as frases. Mas, mesmo assim, dele é possível extrair algumas formulações. O que o caracteriza é a retratação do caráter assimétrico da nossa cultura, onde coexistiam o bacharelismo de Rui Barbosa, ou as piruetas verborrágicas de Coelho Neto, junto com as experiências vanguardistas do pintor Portinari. E hoje, de um lado, a moda de viola e a música sertaneja; doutro lado, a bossa nova e o cinema novo. Essa mistura, por assim dizer, era vista como resultado do desenvolvimento histórico no Brasil que, apesar de unitário, apresenta um abismo entre os aspectos arcaicos e modernos, entre as favelas e os arranha-céus, entre os guardadores de carro e os "shopping-centers", entre Embratel e Piauí.
*
O manifesto antropofágico tocou no cerne do capitalismo no terceiro mundo: a dependência. Ou pelo menos captou seus reflexos no plano da cultura. Denunciou o bacharelismo das camadas cultas, que permanecem alheadas da realidade do País, reproduzindo os simulacros dos países capitalistas hegemônicos. Ironizou a consciência enlatada de largos setores do pensamento brasileiro, que se comprazem, quando muito, em assimilar idéias, jamais criá-las. Se Oswald de Andrade teve a lucidez de ridicularizar com o mimetismo que tanto seduz o intelectual solene e bacharel, ele não caiu no equívoco de fechar as portas do País do ponto de vista cultural. Ao contrário, sua formulação em torno da "deglutição antropofágica" exige o remanejamento das idéias mais avançadas do Ocidente em conformidade com a especificidade de nosso contorno social e político.Nesse ponto é difícil negar sua atualidade. Ademais, a estrutura social que a antropofagia reflete e denuncia ainda não mudou em seus aspectos fundamentais. A industrialização das últimas décadas, realizada sob a égide do capitalismo concentracionista, aguçou ainda mais o desenvolvimento desigual em nosso País, trazendo, de um lado, sofisticação e modernização tecnológicas e, doutro lado, engendrando bóias-frias e marginalidade urbana. O Brasil em que Oswald escreveu o manifesto antropofágico e o Brasil de hoje é ainda o mesmo, ostentando, entre outras coisas, "berne nas costas e calosidades portinarescas nos pés descalços".
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A retomada oswaldina na década de 60 sobretudo pela música popular (através do movimento tropicalista), tem a sua razão de ser em parte na persistência dessa estrutura social. Ao contrário da década de 40 - época em que foi injustamente criticado de escritor desleixado e superficial - Oswald de Andrade goza, nos dias de hoje, de enorme receptividade, principalmente junto ao público universitário. Ao lado de Mário de Andrade, que forma o outro pólo da moderna literatura brasileira, é impossível compreender o sentido e a dinâmica do movimento de 22 sem levá-lo em conta.Nesse sentido, o manifesto antropofágico é um sarampo que pegou fundo e de maneira duradoura a cultura no Brasil.
O texto acima é um editorial. Foi publicado na Folha de S.Paulo no dia 15 de maio de 1978.
Link: http://almanaque.folha.uol.com.br/semana22.htm
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A respeito do movimento modernista, os críticos e os estudiosos entram em sintonia num ponto: a Semana de Arte Moderna, realizada em 1922, em São Paulo, representou um marco, verdadeiro ponto de inflexão no modo de ver o Brasil. Não só de ver como de escrever sobre o Brasil. Em geral, os artistas e intelectuais de 1922 queriam arejar o quadro mental da nossa "intelligentsia", queriam pôr fim ao ranço beletrista, à postura verborrágica e à mania de falar difícil e não dizer nada. Enfim, queriam eliminar o mofo passadista da vida intelectual brasileira.Do ponto de vista artístico, o objetivo fundamental da Semana foi acertar os ponteiros da nossa literatura com a modernidade contemporânea.Para isso, era necessário entrar em contacto com as técnicas literárias e visões de mundo do futurismo, do dadaísmo, do expressionismo e do surrealismo, que formavam, na mesma época, a vanguarda européia. Desse ângulo, o modernismo é expressão da modernização operada no Brasil a partir da década de 20, que começava a dar sinais de mudança (vide, no plano político, o movimento rebelde dos tenentes) de uma economia agroexportadora para uma economia industrial.Esse juízo é, do ponto de vista mais geral, certeiro; no entanto, ele não deve esconder as diferenças no seio do movimento de 22. Diferenças de ordem política, ideológica e estética. Na verdade, houve duas correntes modernistas: uma de inspiração conservadora e totalitária, que iria, em 1932, engrossar as fileiras do integralismo, e outra, mais crítica e dissonante, interessada em demolir os mitos ufanistas e contribuir para o conhecimento de um Brasil real que não aparecia nas manifestações oficiais e oficiais da nossa cultura. O pressuposto essencial de 22, o autoconhecimento do País, tinha a um só tempo de acabar com o mimetismo mental e denunciar o atraso, a miséria e o subdesenvolvimento. Mas denunciar com uma linguagem do nosso tempo, moderna, coloquial, aproveitando o arsenal estilístico e estético das inovações vanguardas européias.Essas duas correntes se delineiam em 1924, com a publicação do primeiro manifesto de Oswald de Andrade, Pau Brasil, no "Correio da Manhã". Nele já estava inscrito o lema que guiaria toda a atividade artística e intelectual da ala crítica modernista: "A língua sem arcaísmos, sem erudição. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos". A outra corrente, conservadora, que iria opor-se a Oswald de Andrade, seria conhecida por verde amarelismo, cujo batismo mostra bem a filiação nacionalista e xenófoba: um canto de amor, cego e irrestrito, às "glórias pátrias". Em 1928, essa oposição recrudesce. E, com ela, a politização do modernismo. Verde-amarelismo transmuta-se em Anta; Paulo-Brasil deságua no movimento antropofágico.Neste mês de maio faz 50 anos que o inquieto, o irreverente e zombeteiro Oswald de Andrade escreveu o manifesto literário antropofágico. De lá para cá muita coisa mudou no Brasil. Tanto política como culturalmente. Apesar de marcado ainda por traços de dependência, o País se industrializou nas últimas décadas; houve mudanças sociais e econômicas significativas. Se não quisermos apenas celebrar ingenuamente a data, temos de nos perguntar: teria ainda alguma coisa a dizer e a ensinar o manifesto literário escrito em 1928?Para isso, seria preciso situar o núcleo da antropofagia, que Oswald de Andrade, aliás, nunca formulou clara e explicitamente; seu manifesto foi escrito numa linguagem elíptica, repleta de ambiguidades e sem ligação explícita entre as frases. Mas, mesmo assim, dele é possível extrair algumas formulações. O que o caracteriza é a retratação do caráter assimétrico da nossa cultura, onde coexistiam o bacharelismo de Rui Barbosa, ou as piruetas verborrágicas de Coelho Neto, junto com as experiências vanguardistas do pintor Portinari. E hoje, de um lado, a moda de viola e a música sertaneja; doutro lado, a bossa nova e o cinema novo. Essa mistura, por assim dizer, era vista como resultado do desenvolvimento histórico no Brasil que, apesar de unitário, apresenta um abismo entre os aspectos arcaicos e modernos, entre as favelas e os arranha-céus, entre os guardadores de carro e os "shopping-centers", entre Embratel e Piauí.
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O manifesto antropofágico tocou no cerne do capitalismo no terceiro mundo: a dependência. Ou pelo menos captou seus reflexos no plano da cultura. Denunciou o bacharelismo das camadas cultas, que permanecem alheadas da realidade do País, reproduzindo os simulacros dos países capitalistas hegemônicos. Ironizou a consciência enlatada de largos setores do pensamento brasileiro, que se comprazem, quando muito, em assimilar idéias, jamais criá-las. Se Oswald de Andrade teve a lucidez de ridicularizar com o mimetismo que tanto seduz o intelectual solene e bacharel, ele não caiu no equívoco de fechar as portas do País do ponto de vista cultural. Ao contrário, sua formulação em torno da "deglutição antropofágica" exige o remanejamento das idéias mais avançadas do Ocidente em conformidade com a especificidade de nosso contorno social e político.Nesse ponto é difícil negar sua atualidade. Ademais, a estrutura social que a antropofagia reflete e denuncia ainda não mudou em seus aspectos fundamentais. A industrialização das últimas décadas, realizada sob a égide do capitalismo concentracionista, aguçou ainda mais o desenvolvimento desigual em nosso País, trazendo, de um lado, sofisticação e modernização tecnológicas e, doutro lado, engendrando bóias-frias e marginalidade urbana. O Brasil em que Oswald escreveu o manifesto antropofágico e o Brasil de hoje é ainda o mesmo, ostentando, entre outras coisas, "berne nas costas e calosidades portinarescas nos pés descalços".
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A retomada oswaldina na década de 60 sobretudo pela música popular (através do movimento tropicalista), tem a sua razão de ser em parte na persistência dessa estrutura social. Ao contrário da década de 40 - época em que foi injustamente criticado de escritor desleixado e superficial - Oswald de Andrade goza, nos dias de hoje, de enorme receptividade, principalmente junto ao público universitário. Ao lado de Mário de Andrade, que forma o outro pólo da moderna literatura brasileira, é impossível compreender o sentido e a dinâmica do movimento de 22 sem levá-lo em conta.Nesse sentido, o manifesto antropofágico é um sarampo que pegou fundo e de maneira duradoura a cultura no Brasil.
O texto acima é um editorial. Foi publicado na Folha de S.Paulo no dia 15 de maio de 1978.
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